Aparelho metafísico de meditação
Um prisma de madeira conjuga, numa das faces, com dois círculos de vidro sobrepostos através de um mesmo eixo. Em ambos estão inscritas as palavras Deus, o Homem, fez, que através das do observador permitem três combinatórias de frases, com três distintos sentidos. Assim, desde a asserção Deusfez o Homem até o Homem fez Deus, passando por fez o HomemDeus – situação em que ambos os termos se equivalem – todas as possibilidades coexistem. A lógica distribucionalista, a que as possibilidades de uma proposição são submetidas, devolvem a meditação metafísica à análise da linguagem, e, a transcendência, subentendida no título, amplifica o paradoxo. Revela-se neste confronto o papel configurador da linguagem relativamente a qualquer crença, transcendência ou universo, proclamando-se como uma estrutura universal cuja espacialidade, que a articula, declara o domínio artístico e implica-o.
Pedro Lapa