Sabat – Dança de roda

Desde 1934, subjazendo à prática «dimensionista», o Surrealismo começa a aflorar na obra de António Pedro, manifestando-se nos seus poemas visuais como a transposição das forças do desejo. Dança de roda (Sabat) representa já a assunção programática deste movimento e marca o abandono do intimismo poético dos pequenos formatos anteriores para adoptar a força visual que as telas de grandes dimensões favorecem. O seu programa de «exaltação sensível» que, de futuro, se delineará como a renovação do imaginário, através da exploração do inconsciente, atinge aqui uma atmosfera inquietante. A dança, que anos depois descreverá no Protopoema da serra d’Arga como cena rural de domingo, emerge aqui como particular e vertiginosa dança sem fim. O motor dos estímulos sexuais transforma as quatro figuras em gigantes poderosos de grotesca conformação, descaracterizados e andróginos, definidos por formas fálicas e agressivas, como manifestam os seus mamilos cortantes, numa clara oposição aos cânones do bom gosto dominantes. No poder do desejo, na sua fealdade, na sobredimensão das figuras e na sua desrealização de rostos-falos e braços-seios e na atmosfera de mistério desta Dança, estão contidas algumas directrizes que orientarão o seu trabalho da década seguinte, que tão relevante se manifestará para a nova geração surgida na segunda metade de anos 40.

Maria Jesús Ávila


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