Milheiral

Ao longo de prestigiada carreira, Carlos Reis sempre exercitou o gosto pela cor, estudada na multiplicidade de situações lumínicas ‘naturais, reactualizando a estética ar-livre como matriz inesgotável da prática pictórica.
Nos melhores casos, como aqui acontece, Carlos Reis empenha-se, sem compromissos de registos de género, num confronto plástico com a extrema variabilidade dos referentes no espaço restrito da tela. Daí os sucessivos empenhos: primeiro, simular, através de um lento desenrolar ascensional da composição, a infinitude da paisagem cujo ‘longe’ toca uma ampla linha de horizonte onde toda a descrição se esbate; depois, o de deter a diversidade lumínica entre os dourados quentes do primeiro plano, esfriados sensivelmente pelos laivos de verde, e a progressiva opacidade translúcida dos fundos onde a atmosfera pesa, quase materialmente; finalmente, a simulação hábil de um registo espontâneo, ‘fotográfico’, como se o trabalho da pintura não existisse ou, melhor, como se o pintor fosse dotado da capacidade mágica de criar, num avatar tardio mas sincero da teoria albertiana da pintura como uma ‘janela aberta’.

Raquel Henriques da Silva


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