Leitura de uma carta
Numa sala romântica desenvolve-se uma cena de convívio íntimo e familiar, ao gosto salonnard. Uma carta é o motivo deste encontro e dos olhares ansiosos que a lêem. Da leitura de uma carta adivinha-se um enredo misterioso, enquanto que o artista dispersa o olhar do espectador pela sala de gosto burguês. Os retratos de duas personagens anónimas são entendidos, não por uma pose directa ou pela frontalidade dos rostos, antes pela envolvência e registo sinalizado de todos os objectos. Entre elementos estruturais de apoio, mesa e consola, manifesta-se o gosto pela chinoiserie, aliado ao móvel romântico e à gravura neoclássica. Em tonalidades rubras e reflexos escuros, apresentam-se os vestidos das retratadas, ligando simbolicamente a cor à paixão e à mensagem. Em seu torno, o ambiente escuro da sala apresenta um tratamento de fundos em verdes enegrecidos. De carácter intimista e documental, esta obra evoca vivências das burguesias lisboetas, situação rara na pintura portuguesa. A aproximação a Alfredo Stevens poder-se-á formular pelo ambiente requintado, ou ainda a cenas semelhantes, de artistas estrangeiros secundários, num tema muito frequente na época, e muito divulgado, tanto pela acessibilidade do assunto como pelo interesse descritivo e novelístico que o ligam à literatura e ao folhetim, muito difundido em periódicos.
Maria Aires Silveira