Nocturno
De uma modernidade extrema dentro da obra do artista e no panorama nacional, esta tela explora as superfícies cromáticas dentro de uma poética de diluição da relação forma-cor. O silêncio da paisagem torna-se assim a sua transcendência, que no horizonte de visualidade inscreve o invisível. Esta relação sinestésica, característica das poéticas do Simbolismo, vem gerar na presente pintura um entendimento do espaço para-abstracto quase circunscrito à superfície da tela. O verde escuro que tudo absorve encontra na luz lilás da janela uma expressiva marcação de interioridade habitada e subitamente exteriorizada pelo reflexo nas águas do rio, tornando-as presentes. Este reflexo permite ainda amplificar o próprio movimento de exteriorização. As linhas de separação entre a terra e as águas assumem inflexões arte nova. Outro aspecto que esta pintura permite clarificar é um conhecimento da obra de E. Munch por parte de António Carneiro, que não se limitou ao Friso da Vida mas a obras como a Tempestade ou a Noite estrelada em que, quer o motivo da janela iluminada, quer as superfícies monocromáticas diluindo as formas terão impressionado o artista.
Pedro Lapa