Lisboa e o Tejo; Domingo
Uma larga perspectiva panorâmica apresenta o tema favorito do artista que, de diversas formas, será desenvolvido durante toda a sua obra. O gradeamento característico do varandim do Palácio do Marquês de Tancos funciona como «boca de cena» construindo uma meia elipse a que respondem os azuis do céu, do rio e da outra margem. Uma rua larga abre o espaço no centro de um casario compacto de onde as duas torres da Igreja de S. Cristóvão se alçam. Este motivo será recorrente na obra do artista, bem como a vista da cidade tirada de um ponto elevado. A marcação do claro-escuro é realizada através de sombras dadas nos planos claros das empenas e de alguns brancos intensos, todavia não é uma preocupação muito relevante e que em obras posteriores desaparecerá. Os tons rosa e terra do casario e dos telhados afirmam plenamente a substancialidade desta pintura que assim atribui um valor idêntico a ambos. A linearidade com que os telhados são tratados repudia o descritivismo de pormenor. Os arrastamentos da matéria cromática encontram por vezes algumas sugestões abstractizantes, como é o caso do casario do lado esquerdo, que apresenta uma empena e o telhado numa nítida valorização pictórica das superfícies constitutivas. Sugestões ingénuas estão também presentes em algumas perspectivas de gradeamentos de varandas. A figura debruçada na varanda, que contempla a rua, evoca o outro pintor de Lisboa que foi Francis Smith, embora aqui a figura não esteja em conversação com outra, acentuando o silêncio e a melancolia do domingo que as bandeiras nacionais indicam numa dormente imobilidade de uma cidade parada no tempo e ensimesmada, afinal como esta pintura.
Pedro Lapa