Paisagem tirada da Charneca de Belas ao pôr-do-sol

Silva Porto executou este quadro depois do seu regresso do pensionato no estrangeiro. A memória de Barbizon, através da lição de Daubigny e de Millet, está ainda fresca. Com este e mais 28 quadros apresentados na 12ª Exposição da Promotora inaugurou o Naturalismo na pintura portuguesa. A paisagem abandona uma composição cenográfica ou idealizada para revelar uma espontaneidade desconhecida, extrínseca às categorias do Belo ou do Sublime, servida por uma luz natural.
Este pôr-do-sol foi realizado intencionalmente sem recorrer aos vermelhos no céu. Os toques luminosos, dados nas orlas das nuvens sob uma luz desmaiada, criam a atmosfera do fim de tarde, que contrasta em densidade com a massa compacta e penumbrosa da terra de notável qualidade matérica, realizada por uma pincelada pastosa, onde as cores se arrastam umas sobre as outras. Também o horizonte, recortado pelas silhuetas das árvores, contribui para o efeito geral.
A paisagem, ainda que despojada, tem uma evidência mais marcante que as figuras que nela se envolvem. O pathos destas é milletiano: um realismo dócil as anima com uma certa melancolia, contudo não revelam a dimensão escultórica deste. Tal como em Millet, estas camponesas são entendidas na tradição de uma ancestralidade indiferente às marcas da modernidade, alheias à nova civilização industrial. Neste sentido é ainda um olhar romântico, já no seu termo, que as figura.

Pedro Lapa


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