O lago de Enghien
O Lago de Enghien foi oferecido por Silva Porto a Delfim Guedes, então Vice-Inspector da Academia de Belas-Artes e futuro conde de Almedina, por quem o autor foi sempre defendido. Realizado no período final do pensionato do artista em França, a influência de Daubigny é plena. Até o barco do segundo plano evoca a memória do barco-atelier do mestre. O contraste entre o céu claro e a penumbrosa mancha terrestre, que se ilumina com o reflexo das águas e onde o arvoredo se espelha, exprime uma poética do natural radicalmente nova na pintura portuguesa. A paisagem é entendida fora dos seus clássicos e “artificiais” conceitos de composição, para revelar a captação do espontâneo e fugaz, feito símbolo nas aves que pontuam a suspensão do instante, no primeiro plano. A pintura passa a ser entendida como a fixação dos muitos instantes de um percurso, e o instante a temporalidade própria do natural se fazer visível.
Pedro Lapa