Jogo de damas

Uma vez mais é em Cézanne e na memória dos jogadores de cartas que esta pintura encontra a sua ascendência. A composição angulosa das figuras que se desenvolvem em volta da elipse do tampo da mesa correspondida pelo espaldar de uma cadeira, define um espaço intimista onde é reconhecível a mulher do artista, a pintora Clementina Carneiro de Moura. A perspectiva da cena é dada de um plano relativamente alto que melhor permite aprofundar o espaço obliquamente em relação ao plano da tela com uma certa tensão construtiva. A gama cromática extremamente clara, oscilando entre os rosas e os cinzas, é susceptível de relação com a pintura a fresco que o artista praticou e ensinou, todavia, nas figuras, principalmente na do rapaz, a presença da factura estabelece um interessante contraste de densidades. O xadrez do tabuleiro encontra um pálido eco no chão estabelecendo uma relação entre ambos, que torna as figuras em peças de outro jogo, a própria pintura, que ora se afirma, ora se dilui na representação naturalista. Assim, às silhuetas das cabeças executadas por linhas rectas quebradas ou à geometrização abstracta do fundo e do chão que o motivo permite numa situação limite, entre um sentido construtivo do espaço pictórico e uma situação natural adequada, responde a sombra da mesa criada por uma luz natural sobre as coxas da senhora, ou a da gola do vestido, como situações próprias do levantamento de um Naturalismo recalcado, mas estrutural, sob um Modernismo compreendido como efeito de estilo.

Pedro Lapa


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