Festejando o S. Martinho
Pintura realisticamente construída, identifica-se com um imaginário mítico de “portuguesismo”, forjado por Malhoa, facilmente aceite por um gosto popular e ajustado a uma suposta identidade nacional. O pormenor descritivo, a narratividade e a observação detalhada das várias fases da bebedeira integram o retrato colectivo destas figuras reais captadas no local, conhecidas do artista e nomeadas por António Montês, no interior soturno de uma taberna: O Regedor, sóbrio (também retratado em pose, individualmente, em 1903), prepara-se para comer uma sardinha no pão, caracterítico petisco português, O Carriço, Jerónimo Godinho, Alfredo Ventura (retratado individualmente), Júlio Soares Pinto e Julião dos Santos. Sentados e encostados desalinhadamente em torno de uma mesa, em posições diversificadas, tanto numa aparente lucidez, como em desequilíbrio, passam de um estado de pré-inconsciência ao sono profundo. Esta análise particular, assim como a revelação do estatuto profissional dos indivíduos que se adivinha pela apresentação minuciosa do seu trajar, e, o tratamento expressivo dos rostos, constituem as características fundamentais da aprovação e bom acolhimento deste quadro, garantindo o sucesso nas críticas da época e subsequentes, apesar da singularidade desta temática na pintura portuguesa.
O tema tinha sido já abordado por Malhoa em A volta da romaria (1901), A procissão (1906), Basta, meu pai (1910) em composições ensolaradas, sempre observadas em Figueiró dos Vinhos, terra de eleição do artista. A cena, situada nesta terra das imediações de Coimbra, integra-se num vasto conjunto de obras do autor, ligadas a um modo de viver rústico localizado, mas que se desenvolve em projecções proporcionais a uma idealizada construção de vivências nacionais rurais e pitorescas, tanto nos seus prazeres como nos seus vícios.
Antecedido por vários estudos a lápis e a óleo, este quadro emblemático de Malhoa relaciona-se com o conhecido O Fado (1910), da colecção do Museu da Cidade, formando um “díptico” do imaginário de Malhoa sobre os costumes populares da cidade e do campo.
Maria Aires Silveira